É PRECISO MUDAR O PRESENTE”, JOSÉ EDUARDO AGUALUSA

Há futuros que são já presente. Amanhãs feitos de resquícios de um hoje imaturo. O futuro não existe. O único tempo que temos é o agora. O resto são prólogos talhados por farpas de um presente em que ficam pontas soltas, arestas por limar. “Barroco Tropical”, o novo romance de José Eduardo Agualusa, ocupa-se desse futuro. Um futuro próximo, polvilhado de amanhãs que vivemos hoje
O autor de “Nação Crioula” e “Vendedor de Passados” leva-nos numa viagem por uma Angola de 2020. Luanda a oscilar num limbo entre o sonho e o caos, uma espécie de retro-futurismo onde a desordem e as ilusões desfeitas coabitam. O petróleo acabou, há uma mulher na presidência e um aparelho de Estado dominado por um traficante de armas. Mas Agualusa recusa a catalogação de pessimista. Muito do que está no livro já acontece. Outro tanto pode vir a acontecer se certas dinâmicas actuais não mudarem. Mas acredita que é possível revertê-las. Numa longa entrevista concedida à África Today, em sua casa, o escritor mostra como acredita no futuro de Angola. “Barroco Tropical” não é distopia meramente crítica, é um grito de ajuda.
“Barroco Tropical” é uma incursão pelo futuro, mas não um futuro muito distante. Porquê esta distância temporal?
Porque é um espaço relativamente curto dentro de um futuro próximo, um futuro que nos permite já reflectir sobre o presente. Há uma série de forças, dinâmicas, movimentos na sociedade angolana que, caso evoluam numa determinada direcção, podem vir a provocar distorções graves. O livro serve também de alerta para esse tipo de distorções.
O seu objectivo, ao escrever este romance, foi sempre tentar evitar essas distorções?
Sim, uma forma de discutir o presente olhando para o futuro. O essencial é que o livro seja capaz de alertar para certas dinâmicas e de ajudar a conduzir a algum tipo de debate.
Há quem o considere ficção científica.
Não tem nada a ver com ficção científica, é um livro passado num tempo futuro mas sem a distância necessária para ser catalogado assim. Eu gosto de ficção científica mas este livro não tem nada a ver com isso, é uma distopia. Mas uma distopia com elementos de utopia. Há um rapaz que desenha paisagens nas paredes e começa por desenhar cenários de pesadelo mas termina a desenhar uma cidade perfeita.
Há uma referência ao Blade Runner, que é ficção científica.
Mas o que é mais interessante no Blade Runner é a capacidade de mostrar uma sociedade, com elementos que já estão hoje a acontecer, e que se transformou num pesadelo. E, ao mesmo tempo, levanta algumas questões filosóficas sobre o que é a condição humana, o que distingue uma pessoa de um ser fabricado. É isso que me interessa mais. Todos os livros ou filmes desse género que são mais interessantes são aqueles capazes de levantar essas questões. Não é ver os desenvolvimentos tecnológicos, isso é o mais fácil. O mais difícil e interessante tem a ver com as questões morais e éticas, como é que essas preocupações vão evoluir.
Retrata uma cidade de Luanda que “caminha para o caos”. Partilha dessa opinião?
Acho que essa é uma opinião que toda a gente partilha. É inequívoco que Luanda atravessa um período muito complicado. O que não quer dizer que não seja possível resolver os seus problemas. Acredito que é. Mas para quem vive por dentro aquela cidade há uma sensação de que, a cada ano, está mais difícil. Sobretudo por causa do trânsito, porque há demasiada gente a viver na cidade e ainda não foram encontradas soluções. Pelo contrário, o facto de se estar a construir arranha-céus, prédios enormes, no centro da cidade, vai dificultar ainda mais. Esses grandes prédios acabam por gerar mais problemas de energia, de abastecimento de água... Trânsito, segurança e abastecimento de água na cidade são problemas com que as pessoas têm de lidar no seu dia-a-dia.
Na Angola de 2020 que imaginou há já um grande arranha-céus, central no enredo, que é a Termiteira. Vê isso como um futuro próximo?
A Termiteira é, no fundo, uma metáfora do próprio país. Mas há já uma série de projectos para grandes prédios, alguns já em execução, e outros vêm já sendo apresentados à imprensa. Lembro-me de um edifício que seria, se fosse construído, um dos maiores de África. Volta e meia há tentações de comparar Luanda e Angola com o caso do Dubai. Mas não são sequer situações comparáveis. No Dubai construiu-se sobre a areia, não havia um património arquitectónico para preservar. Em Luanda há. E, infelizmente, muitos desses prédios estão a ser construídos sobre jóias arquitectónicas. O caso mais clamoroso foi o da destruição do Mercado de Quinaxixe, que era um edifício único, de arquitectura tropical, um verdadeiro exemplo de adaptação da arquitectura ao meio envolvente. Está a construir-se destruindo património histórico importante e, ainda por cima, edifícios sem assinatura, sem valor arquitectónico.
Ao contrário do Dubai.
No Dubai, não só não se está a destruir para construir, como alguns desses edifícios são assinados por arquitectos muito famosos. Foram construídos respeitando uma série de normas e são construções que vão ficar como exemplo para o futuro. Não é isso que está a acontecer em Angola, estão a ser construídos edifícios sem assinatura, sem desenho e insustentáveis.
Depois dos dois últimos romances, “Vendedor de Passados” e “As Mulheres do Meu Pai”, que olhavam muito para o passado, deu agora um salto para o futuro.
No fundo estamos a falar do presente. O “Vendedor de Passados” também já era um livro sobre o presente. Era uma sátira sobre este presente, sobre pessoas desta nova burguesia angolana que tem enriquecido rapidamente, em situações muitas vezes estranhas, e que tem necessidade de ter um outro passado, que estariam até dispostas a comprar um novo passado. Mas o que faço acaba sempre por ser uma maneira de pensar o presente. Mesmo quando escrevi romances históricos, a “Conjura” e o “Nação Crioula”, passados no século XIX, foi uma outra maneira de olhar o presente. Creio que algumas das distorções da sociedade angolana já vêm de trás. O confronto entre a cidade e o campo é uma coisa que já se pressentia, já estava presente na sociedade do século XIX, e depois começou a agudizar-se, o que, em parte, explica a guerra civil. É bom ter em conta que, através do passado, consegue compreender-se melhor o presente.
Ou através do futuro…
Exacto. Por vezes, fazendo como fiz agora com este “Barroco Tropical”, tentando imaginar um futuro próximo é também possível compreender melhor aquilo que se passa hoje.
Nos seus dois últimos romances, o tema do passado era omnipresente. Neste novo romance aponta ao futuro mas acaba sempre por falar do passado. Há algum tipo de obsessão sua com o passado?
Acho é que há muito passado em Angola para estudar, para explorar literariamente e para contar. É um país cheio de histórias, e muitas dessas histórias são ocorridas num passado recente e que ainda não foram exploradas. Estou a lembrar-me da Rainha Ginga. É uma das personalidades mais fascinantes do continente africano, há vários romances sobre ela, mas não há nenhum grande romance, o grande romance da Rainha Ginga. Esse ainda está por escrever.
Será o Agualusa a escrever esse grande romance sobre a Rainha Ginga?
Gostava muito… Não sei se algum dia o conseguirei fazer porque é um desafio muito grande. Mas não é nada que ponha de lado. O que acontece depois é que há tantas histórias excelentes no presente que não se consegue fazer tudo.
Corre-se o risco de deixar escapar essas histórias?
A maior parte das histórias ainda não foi contada. Por exemplo, na verdade ainda ninguém escreveu o grande romance sobre a guerra civil. Não há ainda, ninguém escreveu, o que é incrível.
Há falta de coragem?
Há falta de escritores. Os escritores levam tempo a construir. Um músico popular faz-se em menos tempo, um escritor exige mais tempo de formação. É necessário um investimento muito grande e continuado para se formar escritores. É preciso melhorias na cultura e na educação, na ampliação da rede de bibliotecas públicas. E num país como Angola, em que um livro é muito caro e chega a muito poucas pessoas, é normal que não haja muitos escritores. Ainda assim, Angola é um dos poucos países de África que tem um grupo de escritores com dimensão internacional. Mas muito poucos jovens, porque os jovens foram privados do acesso à cultura durante este tempo todo. Pode ser que daqui a dez ou quinze anos, com maior esforço do governo, possam ser criadas as condições para que daqui a vinte ou trinta anos comecem a surgir novos escritores.
Preocupa-o essa falta de escritores?
Naturalmente. Porque há histórias que se vão perdendo. Angola tem grandes histórias com uma dimensão universal e é uma pena que não se faça mais para evitar que se percam. Todas as grandes tragédias geram histórias, a Segunda Grande Guerra deu origem a inúmeros bons romancistas, com a Guerra Civil Americana aconteceu o mesmo. Todos os grandes conflitos, todas as situações de ausência de Estado, produzem literatura. O derrube das Torres Gémeas nos EUA, por exemplo, já deu origem a alguns grandes livros. Angola tem muitas histórias mas há poucas pessoas para as contar a todas.
Sei que a personagem da mulher que cai do céu lhe surgiu, numa altura em que o livro estava um pouco encravado, através de uma mulher que conheceu no avião a caminho de Luanda…
Sim, isso acontece constantemente em Angola. Toda a gente tem histórias para contar. Basta ter as portas abertas e conversar com as pessoas. A cada momento, aparecem-nos temas, histórias…Não há comparação com Portugal.
Voltando ao livro, esta visão de uma Luanda que caminha para o caos social é uma visão bastante pessimista…
Não estou a fazer profecias, não estou a dizer que aquilo é o que vai acontecer. No máximo, aquilo que pretendo fazer é um alerta. Estou a dizer: atenção que há dinâmicas que podem resultar nisto. Acredito que é possível reverter essas dinâmicas, acredito mesmo. Existem, dentro da sociedade angolana, determinadas forças que estão conscientes dessas situações e que têm capacidade para ajudar a inverter esse tipo de dinâmicas.
O livro retrata uma situação social onde o fosso entre ricos e pobres é cada vez maior. Como vê essa situação?
Angola é um dos países com maior disparidade, o fosso social é imenso. Não há uma classe média, as pessoas têm muito dinheiro ou têm pouco ou quase nada. É preciso olhar para isso para evitar que aconteçam problemas sociais graves. O que acontece é que há pessoas, que até há pouco tempos se diziam marxistas e apologistas de uma sociedade mais igualitária, que estão hoje alheios ao sofrimento da maioria da população. Muitos desses dirigentes mostram-se completamente alheios a tudo isto, talvez alguns nunca tivessem sequer tido essas preocupações. O que é incrível, tendo em conta que a maioria desses dirigentes veio dessa maioria da população pobre, são pessoas de origens muito humildes. E Angola é um país com muitos recursos naturais, podia ser um país melhor para todos se essa riqueza fosse melhor distribuída.
Fala também no “fim da era do petróleo”. Quais serão as consequências para Angola numa era pós-petróleo?
O problema é que Angola tem toda a sua economia assente no petróleo. Mais uma vez, devíamos olhar para o que estão a fazer os países árabes, que estão a fazer projectos prevendo o fim do petróleo. A Noruega também. É um país extremamente rico, produz petróleo, mas não vive disso e está a aplicar o dinheiro do petróleo noutros projectos de forma a que, quando acabar, possa manter os seus padrões de vida. Esse é um modelo que gostaria de ver Angola adoptar.
Nesta Angola de 2020 temos uma mulher na presidência. Vê essa situação como uma hipótese para breve, agora que estamos a caminhar para umas eleições presidenciais?
Angola é um país extremamente machista mas, ao mesmo tempo, é um país com uma certa tradição e cultura de poder no feminino e onde já hoje existem uma série de mulheres em cargos de poder. Historicamente, Angola tem diversas figuras femininas que tiveram grande poder, falámos há pouco da Rainha Ginga, e hoje também há algumas mulheres em cargos importantes nos vários Ministérios. Por isso, penso que não seria um grande choque.
Quando colocou uma mulher na presidência de Angola pensou em alguém?
Não, não...
Não pensou em Isabel dos Santos?
Não me parece que a Isabel manifeste interesse em poder político. O presidente tem outra filha, a Tchizé, que é agora deputada e manifesta mais interesse pela política. Mas criou muitos inimigos, mesmo dentro do partido. Não me parece que nem uma nem outra pudessem chegar à presidência. Mas nunca sabemos...
Gostava de ver uma mulher na presidência?
Gostava, gostava. É uma tendência que todos os países do mundo deviam seguir. Os homens já estiveram tanto tempo e com resultados não tão bons quanto isso. As mulheres que estão no poder continuam a fazê-lo à maneira dos homens mas acredito que isso mude se estiverem mais mulheres no poder. Porque existe uma cultura de séculos de um poder feminino mais baseado no diálogo. Historicamente, sempre foi assim, não eram as mulheres que ia para a guerra eram os homens. As mulheres tinham um papel mais pacificador, no sentido de alcançar os seus objectivos através do diálogo. Acredito que, se isso for transposto para a política, possa trazer bons resultados. E acredito que isso seja bom para a humanidade.
Voltando à questão do passado e do futuro… Só é possível construir o futuro mudando o passado?
(risos) Isso é uma brincadeira de um dos personagens, que diz que quem está no poder tem essa tendência para mudar o passado. Isso de facto acontece, sobretudo entre os aspirantes a ditadores. O Berlusconi tenta fazer isso em Itália. Todos os aspirantes a ditadores têm essa tentação de mudar e moldar o passado à medida que vão construindo o futuro. Agora, o que é necessário é mudar o presente.
E está a ser feita alguma coisa para mudar o presente em Angola?
Está, muito lentamente mas está. Poderia ser mais rápido se houvesse outro tipo de políticas, se o regime tivesse mais atenção e apostasse realmente em redistribuir a riqueza, em enfrentar os grandes desafios. Os grandes desafios da Angola de hoje são a alfabetização da população e a escolarização. Dar formação às pessoas. Esse deveria ser o primeiro desafio. Depois, evidentemente, criar uma rede sanitária no país, dar saúde a toda a gente. Mas o primeiro de tudo tem de ser a escolarização. O super Ministério em Angola deveria ser o Ministério da Cultura e da Educação. É para aí que deveria ser canalizado o grosso do dinheiro.
Parece-lhe que falta a Angola, para mudar esse presente, estar em paz com o seu passado?
Também, evidentemente. É importante que as pessoas possam discutir as suas divergências e criar condições para que possa haver diálogo. Um dos grandes problemas das sociedades totalitárias é que impedem que as pessoas discutam os seus problemas. Durante muitos anos, em Angola, não houve espaço para debate, o que faz com que as pessoas ainda hoje tenham dificuldade em conversar. É importante retomar o diálogo. Falta construir essa cultura de diálogo. As pessoas têm de entender que, do confronto de ideias, nascem ideias melhores. Esse é o grande benefício da democracia: aceitar que o outro pode ter uma ideia melhor do que a nossa.
Este é um livro político?
Todos os romances são, de alguma maneira, romances políticos. E num país como Angola, o escritor também não se pode distanciar demasiado, também tem a responsabilidade de criar algum debate. A literatura tem de ter essa ambição, ser capaz de alterar, por pouco que seja, a sociedade.
Podemos esperar um Agualusa político?
Não. Só nessa medida em que qualquer escritor pode ambicionar provocar algum debate... Mas não penso nisso... acho muito mais interessante ser escritor. Agrada-me muito mais. Nem tinha sequer paciência para isso.
Falando agora mais sobre si, compraria um outro passado se encontrasse um vendedor de passados como o Félix Ventura?
Não, porque tive um passado feliz, estou em paz com o meu passado. Fui uma criança privilegiada. Vivia no limite entre o asfalto e o campo, a minha casa era a última antes da natureza, antes do espaço vazio. Portanto, fui uma criança que cresceu entre uma cidade, que era já grande, e o mato. Isso foi uma boa experiência, cresci em liberdade.
Disse uma vez que é uma das pessoas mais felizes que conhece. O que é a felicidade para si?
Tem a ver com o facto de pensar que as coisas podem sempre ser melhores. Mas também com o facto de estar em paz comigo mesmo, com o meu passado e de ser uma pessoa sem grandes problemas. Tenho saúde, tenho dois filhos maravilhosos, faço aquilo que quero, trabalho naquilo que gosto... e ainda me pagam por isso (risos).
Não é muito comum ver escritores felizes… Parece haver muito aquele culto do escritor sofredor.
Pois, parece que não (risos). Mas não sei se isso será verdade. Tenho vários amigos escritores e há de todos os tipos. Quem escreve por paixão normalmente é feliz. E depois há aqueles que conseguem viver só do que escrevem, outros fazem outras coisas. Eu também sou biólogo e dá-me um grande prazer trabalhar como biólogo. Quem faz aquilo que quer dificilmente será uma pessoa infeliz. As pessoas infelizes são aquelas que são forçadas a fazer algo que não lhes agrada. Não conheço nenhum escritor que se queira reformar, porque escrevem por paixão. Mas há escritores sofredores que escrevem muito bem. Não podemos cair em estereótipos.
Numa entrevista que deu ao Diário de Notícias, em 2007, confessou que não sentia necessidade de escrever, que escrevia por prazer e não por necessidade.
Não é que não sinta essa necessidade, gosto muito de escrever, mas podia fazer outras coisas. Se não pudesse escrever, certamente iria procurar outros caminhos. Mas espero continuar a escrever enquanto me der prazer. Mas se não fosse escritor podia fazer outras coisas. Podia ser artista plástico, podia ser um grande fotógrafo… são coisas que também me dão um grande prazer. Podia ser um bom arquitecto (risos).
Para desenhar arranha-céus como a Termiteira?
Não, se fosse arquitecto não desenharia arranha-céus (risos). Acho que o mais interessante no contexto angolano seria pensar em desenhar casas para a população, casas que fossem adaptadas ao ambiente envolvente. Que ao mesmo tempo fossem baratas, mas interessantes do ponto de vista arquitectónico. Gosto muito de soluções assim. Ainda agora estive em Berlim e fiquei alojado num hotel que é barato mas com um design muito bonito e diferente. É isso que mais me fascina na arquitectura, essa possibilidade de fazer projectos baratos, capazes de servir o grosso da população e, no entanto, originais e com design bonito. A beleza não tem de ser inalcançável.
Ainda vamos ter um Agualusa arquitecto?
(risos) Pode ser que a partir dos 50 anos eu decida que agora vou fazer arquitectura. Como tenciono viver até aos 150, ainda teria mais 100 anos para fazer arquitectura, cinco anos para estudar e 95 para exercer.
No livro assistimos a um cenário de excesso de oferta habitacional, ao contrário da escassez actual. Parece-lhe um cenário provável num curto prazo?
Penso que não, porque a população também está em crescimento e está a entrar muita gente no país. Neste momento, ainda há uma grande inflação imobiliária, as casas continuam caras e a tendência é para que continuem caras durante mais algum tempo. Mas isso pode acontecer. Estes projectos todos que estão a arrancar vão fazer, e toda a gente está à espera disso, com que os preços caíam a pique. E a verdade é que as casas não valem aquilo que as pessoas estão a pagar por elas. Só valem isso porque há poucas casas para muita procura.
Este é um livro um pouco propício a controvérsias, apresenta um governo angolano minado pela corrupção e dominado por um traficante de armas. Como lhe parece que o livro vai ser recebido em Angola?
Infelizmente acho que não são os livros que provocam grande agitação, os livros chegam a muito poucas pessoas. Através de uma entrevista ou outra, às vezes, é possível tratar algumas questões de uma forma mais profunda para conseguir criar algum debate. É verdade que algumas das pessoas a quem os livros chegam são pessoas influentes, acredito que o livro até possa provocar algum debate e, em pequena escala, ajudar a alterar de comportamentos. Mas também não acredito que os livros sejam capazes de provocar uma grande mudança. As polémicas que surgiram comigo nunca foram à volta de livros, tiveram sempre a ver com declarações minhas em entrevistas. Porque as pessoas que lêem livros têm outra preparação, sabem distinguir as coisas e o nível de debate é mais elevado.
Falando em declarações polémicas, há uma situação que se passa com Bartolomeu Falcato semelhante à que se passou com as suas declarações sobre a qualidade da poesia de Agostinho Neto. Aproveitou o livro para pôr os pontos nos is?
Utilizei esse episódio por me parecer extremamente interessante enquanto revelador da presença do absurdo na sociedade angolana. E como o que trato no livro são questões ligadas a isso, era quase impossível não utilizar.
Sente prazer nesses jogos narrativos? Acaba por ser uma forma de ridicularizar certas questões na sociedade...
Claro, claro. Todo o livro é muito satírico. Como também o era o “Mulheres de Meu Pai”, que brincava com a figura do grande macho africano. Acho que os livros também servem para isso porque a sátira é importante.
Bartolomeu Falcato já surgia num romance anterior. Mas neste ganha protagonismo. Em “Barroco Tropical” assume-o como seu alter-ego?
Vamos dizer que neste livro ele pode estar mais próximo de mim e pode partilhar mais memórias do que no livro anterior. Mas muitas das minhas memórias estão também presentes na cantora [Kianda]. Ela tem uma série de memórias de infância que são minhas. Só que não é tão evidente porque eu não sou cantor, sobretudo não sou uma cantora (risos).
Falemos um pouco do seu processo de escrita. Sei que terminou este romance em Amesterdão, numa residência para escritores. O isolamento foi um elemento importante?
Apesar de ter um grupo de amigos angolanos lá, estava num contexto de maior isolamento e isso permitiu-me trabalhar mais, escrevi muito durante esse tempo. Foi pouco tempo mas permitiu que terminasse o livro muito mais rápido do que se estivesse em Luanda ou em Lisboa.
Tem alguma espécie de disciplina enquanto escreve?
Não, não sou muito disciplinado (risos). Para se escrever um romance é preciso alguma disciplina, temos que estabelecer metas, escrever um certo número de páginas por dia... Mas tirando isso, escrevo a qualquer hora e em qualquer circunstância. Escrevo muito bem em quartos de hotel, no avião... Prefiro escrever em casa, evidentemente, mas se tiver que escrever num avião escrevo.
A sua escrita vive muito de uma imaginação prodigiosa. Nunca sentiu receio de perder a inspiração?
Não penso nisso. Até agora não. Acho que isso acontece quando as pessoas se levam demasiado a sério e ficam bloqueadas pela responsabilidade. E eu sou totalmente irresponsável (risos).
Os seus livros sempre se caracterizaram por um largo conjunto de personagens memoráveis. Como é que lhe chegam estas personagens?
Não faço ideia, são aqueles mistérios que não sabemos explicar. Às vezes sonho com personagens, outras vezes o personagem vai-se construindo a partir de uma frase. É um processo misterioso. Muitas vezes vai-se reler aquilo e fica-se surpreendido com o que lá está. Acho que acontece com todos os criadores. Não sabemos de onde as coisas vêm, sentimos que somos uma espécie de médium, uma espécie de intermediário.
Sente alguma estranheza quando relê coisas que escreveu?
Às vezes sinto. Esqueço as coisas e depois, por exemplo quando há traduções e tenho de reler ou nas leituras de apresentação, volto a um livro que já tinha abandonado há algum tempo e, ao ler certas coisas, é quase como se não as tivesse escrito, como se tivesse sido outra pessoa...
Isso assusta-o?
Graças a Deus, até agora não fiz leituras do meu primeiro livro. Desse tenho um pouco de medo (risos). Mas destes últimos até fiquei agradavelmente surpreendido.
Qualquer coisa do género: “Este tipo até escreve bem”...
Sim, isso. Este tipo até não está nada mal, isto não está mau, gostava de ter escrito isto (gargalhada).
Pedro Durães
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