ENTREVISTA BUROCRÁTICA

Outra vez, interpelou a nossa atenção, uma entrevista de altíssimo interesse, como aquela dada pelo vice-presidente da república, Fernando Dias Dos Santos ‘Nando’, à nossa TPA, a partir de Londres, no dia 10 de Março último. A entrevista teve o mérito de desfazer um louco vendável de rumores sobre a sua morte.
A origem exacta do boato, pensamos ser do dever dos serviços de inteligência localizá-la e dar a sequência da tramitação legal que se impuser.
À boa gente, amante da ordem e da tranquilidade, a entrevista teve o condão de garantir a confiança na estabilidade da nascente terceira república. O bebé, como se sabe, nem cem dias ainda fez.
E um súbito desaparecimento do seu número 2, logicamente, não deixaria de perturbar o esquema de arranque de toda a engenharia montada. Por coincidência houve, no mesmo dia, a publicação das competências específicas do vice-presidente, no seu papel de auxiliar do Presidente.
Tudo isto, normal e bem.
Desagradou-nos, no entanto, a causa da envergadura do ‘mujimbu’, a responsabilidade da política governativa de comunicação e a postura do entrevistador do vice-presidente.
O tremendo impacto do boato foi facilitado pela falta de explicação clara e credível sobre o motivo da viagem de emergência do vice-presidente ao exterior do país. De saúde? Por que mal, não há cá condições para ser curado? Mais de 30 anos depois, não se tirou a devida lição da morte de Agostinho Neto, no exterior em condições questionadas até hoje pela Nação? De férias? Na fase em que o mesmo é co-parturiente do recém-nascido bebé chamado terceira república? Consultas de rotina? Mesmas dúvidas que as supracitadas, às quais adicionámos: até quando o país se capacitará em alternativa a este recurso vergonhoso ao exterior, comprovativo da nossa menor idade? Pois, não tem havido reciprocidade, isto é, governantes europeus virem cá, para tratar da sua saúde, passar férias ou efectuar visitas turísticas a sítios históricos e lindas paisagens. Até quando o sentido da independência valerá nestes pontos? Claro, este rol de interrogações, nada tem a haver com xenofobia. Porquê se teima neste tipo de discrição, sendo a verdade sobre os motivos das visitas de Estado fora do país um marco da boa governação, associada ao valor da transparência? Porquê o nosso confrade da TPA se coibiu em ecoar estas questões, correntes na “vox populi”, a voz de Deus, como profissional que se preza? Virando costas a este cânone, cai-se no jornalismo administrativo, na entrevista burocrática, isto é, onde se questiona para acomodar o entrevistado, marimbando-se do consumidor da entrevista.
Chegados aqui, bate à porta da nossa memória aquela prece para os jornalistas, feita pelo Papa João Paulo II, de feliz memória, no discurso pronunciado em 9/11/ 2002, no “Congresso Parábolas Mediáticas”.
Citamos:
«Invoquemos o Espírito Santo para que não falhem comunicadores corajosos e testemunhas autênticas da verdade que, fiéis ao mandato de Cristo e apaixonados pela mensagem da fé, “saibam tornar-se intérpretes das exigências culturais contemporâneas, comprometendo-se a viver esta época da comunicação, não como um tempo de alienação e de confusão, mas como um período precioso para a investigação da verdade e para o desenvolvimento da comunhão entre as pessoas e entre os povos»
Fim de citação.
É de carteira: na entrevista, o jornalista deve questionar, sem contemplação, o entrevistado. No interesse só e apenas do público, sedento de saber o dito e o não dito. A entrevista burocrática fulaniza o jornalismo.
(Uma co-produção de Siona Casimiro e P. Maurício Camuto. Apresentação de Margaret Nanga no programa ‘Visão Jornalístiva’ da ‘Rádio Ecclesia’, na quinta-feira 01 de Abril de 2010)
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