PRECE DE CHUVA

Nos seus perversos efeitos, oh! Deus, a chuva chega alvejar a liberdade de imprensa. Não só nos recantos do Cunene, mas mesmo aqui, em, Luanda, a mídia ressente-se severamente do pandemónio que acompanha sempre a intempérie.

Para já, nas ruas, os ardinas desertam os pontos habituais de venda. Refugiam-se em abrigos de improviso, onde, pelo menos, possam exibir, ainda, um exemplar pouco molhado à escassa clientela. Perdem a afortunada componente, que são os transeuntes de carro, vidro enevoado e fechado, eles próprios assim privados, também, do acesso habitual aos jornais predilectos.

A desgraça começa às vezes em casa, em tempo de enxurradas. Liga-se o rádio receptor e só ruído. O ruído esquisito das quedas no tecto da moradia mistura-se com a tempestade ou trovões no ar, a embrulharem a onda de transporte do sinal da sua “rádio de confiança”. Dissemos “rádio de confiança”. Não, necessariamente, o célebre heterónimo da emissora católica, mas, nesta circunstância, igualmente os pares tais como RNA, LAC, “Despertar”, etc.

Se o azar quer que seja no princípio da noite, pior. A oscilação da luz abre e piora o sofrimento. O barulho dos geradores, disparado por aqueles que o têm, faz igualmente a sua parte nesse calvário. O sinistro impacto não poupa a TV, com imagens que saem do ecrã, primeiro, trémulas, frouxas depois, e sumirem finalmente.

Mesmo as parabólicas, muitas vezes apresentam imagens emaranhadas, distorcidas. E vem de seguida o anúncio “Transmissão perturbada. Faz favor aguarde a retomada da normalidade”. E a normalidade tem a haver, tecnicamente, com a nova sincronização regular do satélite usado pelo servidor comercial da respectiva parabólica.

No local de trabalho, o osso do ofício obriga o profissional a ir captar a realidade do desastre lá fora. Usando somente o carro de reportagem! Mas a realidade exige muitas vezes mais do que isso.

No fim da tempestade, águas paradas tornam-se autênticas lagoas, isolando zonas populosas, doravante, só acessíveis por meio de piroga. Ou pela miudagem, que se dispõe, a troco de alguns kuanzas, a transportar o necessitado às costas, e atravessar os charcos purulentos e malcheirosos.

Pois é sabido que as águas das chuvas se misturam com aquelas dos esgotos  entupidos e jamais assoreados.

Onde apanhar, entrevistar ou filmar, neste desolador panorama, a autoridade urbana, municipal ou comunal? Também vítima da situação! Até, aparece não poucas vezes, como no Cazenga, onde a energia, a boa vontade e a determinação de lutar do administrador não chegam a superar os vários constrangimentos.

O insuportável em Luanda é que mesmo uma chuva miudinha, prevista pela meteorologia, se transforma em catástrofe. Até quando? Orem os crentes e actue a cidadania emergente, na exigência da boa governação, de maneira a se saber gerir melhor a incorporação das mudanças climatéricas nas políticas ambientais.

 

Esta prece pode socorrer-se de bênção ecclesial. Pois, vai de encontro ao espírito da proposta nº22, submetida ao Santo Padre pelo último Sínodo dos Bispos para África, intitulada “Protecção do meio ambiente e reconciliação com a criação.”

(Uma co-produção de Siona Casimiro e P. Maurício Camuto. Apresentação de Margaret Nanga)

Luanda, quinta-feira 08 de Abril de 2010
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