LUCIDEZ NO PLANALTO PÓS CONFLITO (Iª PARTE)

A capital provincial do Bié, Kuito, metamorfoseia-se aos poucos. De palco mais cruel do fratricídio dentro de uma urbe há 16 anos, tem virado a página do passado de pesadelo a olho nu. Desembarcamos no seu aeroporto, na quinta-feira 25 de Março último.

 

Fomos encerrar um “Seminário sobre a Ética e a Deontologia na cobertura Jornalística”, uma acção do Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA). A iniciativa foi promovida a favor dos colegas locais pelo núcleo provincial do Sindicato e patrocinada pela Embaixada norte-americana.

 

Descolamos de Luanda com 45 minutos de atraso sobre o horário previsto e o voo num avião ‘Boeing’ da TAAG foi impecável, ao longo do trajecto e à chegada. O atraso agravou-se na viagem de regresso.

 

A pista do aeroporto Joaquim Kapango, do Kuito, estava limpinha e foi célere o desembarque dos passageiros e da carga. O nosso primeiro olhar nas redondezas maravilhou-se com a verdura retinta de uma vegetação regada por constantes e intermitentes chuvas miudinhas. «É da estação», explicou o anfitrião, o confrade Aniceto Kassaquele, que nos levou para o “Hotel de Fani”, identidade do dono e outro nome sonante da mídia na região.

 

Tem água nas torneiras, do anoitecer até de madrugada, podendo-se tomar banho de chuveiro. E há energia eléctrica da rede pública. De dia, entretanto, o fornecimento dos dois preciosos bens é racionado.

 

O panorama urbanístico em geral, continua rústico: árvores e jardins presentes em muitos lugares, com vivendas rasas. Na periferia suburbana, cresceram  as casotas de fortuna, fruto do êxodo rural, e parece já irreversível.  

 

O predominante ambiente campestre transmite sossego e suavidade a quem sai do stress e louco vaivém de Luanda. Reduziram sensivelmente, no conjunto da paisagem, os edifícios com paredes atingidas de balas, quais gigantescos crivos. Obras de raiz, imóveis reabilitados, muros pintados frescamente, vias asfaltadas em boa parte do casco urbano, etc. têm vindo a apagar as relíquias físicas do antigo campo atroz de batalha.

 

No mercado “Tschisindo”, o movimento assemelha-se ao “Roque Santeiro”, sacudindo até as folhas dos pacatos eucaliptos, ainda de pé no vasto terreno.

 

No centro administrativo, um canteiro, também, está a substituir as ruínas da Sé Catedral, maior carta postal da urbe, outrora. Afastou inclusive a memória de ossos, que apareciam à superfície do quintal vizinho do bispado.

 

Esses, foram removidos, contaram-nos, para o Cemitério Monumento. E, somente, naquele espaço localizado na periferia (onde, também, nos dirigimos pela irresistível curiosidade do ofício), se pode meditar o holocausto, no silêncio dos milhares de sepulturas que lá jazem.

 

Foram inumados lá, com dignidade, os restos mortais das vítimas, identificadas e não identificadas. Uns ao lado dos outros. Todos reconciliados na vida do além. No auge do conflito urbano e feroz, alguns chegaram a lutar corpo a corpo nas trincheiras do ódio e desamor ímpio, a inverter, agora, na dor e no sorriso de outro horizonte.

 

Nesse momento uma prece brotou dos corações, como aquela contida na homilia do saudoso Papa João Paulo II na longínqua sexta-feira, dia 5 de Junho de 1992, no Huambo:

«Dos quatro cantos da Nação, ouvimos um grito, que é um apelo ao mesmo tempo de reconciliação e de esperança: nunca mais a guerra! Paz a Angola, paz a Angola para sempre!»

 

 

(Uma co-produção de Siona Casimiro e P. Maurício Camuto. Apresentação de Margaret Nanga no programa ‘Visão Jornalística’ da ‘Rádio Ecclesia’, na quinta-feira 15 de Abril de 2010)


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