LUCIDEZ NO PLANALTO PÓS CONFLITO (II E FIM)

A nossa penúltima visita ao Kuito data da época a seguir à trégua de Lusaka, quando foi preciso a sua entrega ao Governo de Unidade e Reconciliação nacional (GURN).

O clima era ainda de enxofre, apesar da presença do medianeiro, o malogrado Blondin Beye, e os embaixadores da Troika dos países observadores, que deviam testemunhar a cerimónia.

O ambiente vivido na recente visita foi de outro aroma. Mais suave e tranquilo.

Nos rostos eram visíveis os sinais de serenidade e de paz. Voltando ao seminário, que motivou a estadia, a forma como decorreu regozijou-nos e exprimimo-lo aos participantes.

Mais de trinta colegas da imprensa local, pública e privada, formaram a plateia, assídua nas sessões realizadas durante quatro dias, cada manhã, das 08h00 até meio-dia. A tarde ficava livre para as rotinas profissionais.

O debate aceso incidiu sobre a tese, que, numa ocasião anterior, um formador brasileiro havia levantado, a saber, de que, em toda linha editorial (a deontologia e a ética, inclusive), «o mais importante é a vontade e o interesse do patrão, que vos paga o salário.»

O questionamento desta controversa lição foi muito assumido pelos jornalistas de base, vendo nela a legitimação do arbitrário e prepotência que sentem inúmeras vezes nos seus editores e superiores hierárquicos.

Formador autóctone destacado pelo Sindicato, Cândido Teixeira, do semanário ‘O País’, um colega já a caminho de duas décadas de prática profissional, soube desanuviar a situação.

Reconheceu o lugar e papel do carácter de propriedade de todo órgão de comunicação social numa linha editorial, sem conflituar, no entanto, com a ética e menos ainda, com a deontologia.

Na nossa intervenção, muito agradecida, focámos que «a deontologia é a alma de qualquer profissão a que diz respeito, e o jornalismo, por maioria de razão, em virtude de ser extremamente ligado à consciência do seu operador para com a verdade.

Por isso, temos a cláusula da consciência, entre os recursos de protecção, face à imposição da mentira, venha de onde vier.»

Organizada aliás num formato interactivo, a pedagogia consistiu na humilde partilha de conhecimentos, experiências, apreensões, anseios, expectativas, luzes, incertezas e certezas.

E, comoveu-nos, deveras, a participação intensa, viva e lúcida dos colegas do local. Lucidez, sobretudo, na consciência da sua missão, das condições singulares do seu exercício e respectivos desafios.

Aquela lucidez realça quanto a nobreza do jornalismo se robustece «com o esplendor da verdade e com a luz suave da caridade de Cristo», parafraseando uma gira expressão, empregue pelo Papa Bento XVI, a dado passo da encíclica “Caritas in Veritate”.

(Uma co-produção de Siona Casimiro e P. Maurício Camuto. Apresentação de Margaret Nanga no programa ‘Visão Jornalística’ da ‘Rádio Ecclesia’ na quinta-feira 22 de Abril de 2010)

 


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