REFORMA EDITORIAL? “YES, WE CAN”

Em meados de Março passado, a mídia pública brilhou por mais uma censura, que chegou a indignar mesmo o presidente da CEAST. Ocorreu com o desalojamento forçado de mais de três mil populares do seu bairro residencial para tendas dum acampamento, na periferia da cidade do Lubango.

 

As vítimas denunciaram as condições infra-humanas do seu novo e forçado habitat. Vozes da Sociedade Civil, da Oposição e mesmo do partido no Poder confirmaram a chocante realidade. O presidente da CEAST e Arcebispo do Lubango ficou escandalizado e manifestou-o em público depois da sua visita ao terreno. Em Luanda, só se soube dos factos graças à ‘Rádio Ecclesia’ e pares privados. Na onerosa mídia estatal, tudo isso era ignorado como se fosse histórias de outro planeta ou galáxia.

 

Claro, o país não pode continuar com anormalidade deste género. A mudança impõe-se, é possível e adicionámos: “yes we can”, parafraseando o actual presidente norte-americano, Barack Obama, numa das suas célebres fórmulas, nos modos de Prometeu ao assalto do fogo.

 

A reforma editorial, na mídia estatal, é necessária, urgente e, acima de tudo, possível, ao inverso do que sustentam correntes retrógradas. Estas correntes, pena é que não se comovem com o descrédito a que levam o país e o governo com este tipo de censura sobre assuntos ou temas que dizem respeito a todos ou tocam a vida dos cidadãos. O que se pretende com isso? O silêncio sobre as demolições do Lubango foi um escândalo, uma ofensa ao público, um marimbar-se da situação desse mesmo público que diz servir.

 

O discurso presidencial de estreia da terceira república evidenciou um pensamento inovador no sentido de reviravolta. Na esteira, de resto e em abono da verdade, da direcção que já havia apontado o manifesto eleitoral do seu partido. No plano editorial, o manifesto havia garantido, lembre-se, citamos: «Respeitar o primado da ética, da deontologia profissional e da responsabilidade social, no conjunto da actividade jornalística.» Fim de citação.  

 

O profissionalismo, pedra de toque desta reforma editorial, pode passar ao comando da prática do maior segmento da comunicação social no país. Para tal, este segmento possui suficientes quadros formados, sem comparação com a era colonial, que o recurso a expatriados tem recordado amargamente.

 

Até, tem exibido, volta e meia, dinâmica ilustrativa das potencialidades de mudança, que o discurso da nova ministra confirma, associada a uma prática como o seu encontro com os ardinas maltratados por policias, no dia da visita que efectuou ao Conselho Nacional de Comunicação Social. No mais recente consulado, em termos de dinâmica, o sector protagonizou o crescimento no plano logístico. A salvaguardar! E superar para outros patamares que incluíssem o sulfuroso quadro editorial.

 

Pois, no interstício ora dominante pelos pólos pró-mpla e anti-mpla, ou pró kwacha e anti kwacha, etc., há muito espaço por ocupar, à luz infinita dos interesses do vastíssimo mosaico nacional e patriótico. E comprova-o a incipiente alternativa, onde avultam a ´Rádio Eecclesia’ e os indigentes semanários privados, que fazem das tripas coração para sobreviver. Apoiá-los, legalmente, é outra aposta, aliás.

 

As inegáveis derrapagens (de que se receia tanto, ao ponto de terem inspirado uma lei de imprensa mais criminogénea do que liberal), requerem serenas correcções e órgãos idóneos para a sanção administrativa, de justiça ou moral. Ao Estado, cabe promover e não bloquear, hostilizar ou eternizar o não surgimento desses órgãos, como acontece com a Comissão da Carteira e Ética.

 

Em vésperas de mais um Dia Internacional da Liberdade de Imprensa (que acontece no próximo 3 de Maio), bem-haja a estratégia governativa que indicia a viragem para esta senda.

(Uma co-produção de Siona Casimiro e P. Maurício. Apresentação de Margaret Nanga no programa ‘Visão Jornalística’ da ‘Rádio Ecclesia’ na quinta-feira 29 de Abril de 2010)


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