ERRADICAÇÃO DA MALARIA DAQUI A 20 ANOS: QUE MECANISMOS A ADOPTAR, PARA REDUZIR O PRAZO E COMO ATACAR AS CAUSAS DA DOENÇA

Paulo Brilhoneve, licenciado em comunicação social: “A malária não é um problema de hoje, nem de ontem. É um problema já antigo que se tornou de facto a primeira causa de mortalidade em Angola, com números assustadores”.
“Portanto, quais são as medidas para a erradicação: eu acho que o governo angolano devia ser mais sério, e devia ver de facto a malária como um problema de saúde pública, e devia tomar medidas claras, e munir os hospitais com recursos humanos, medicamentosos. Quando falo em recursos humanos refiro-me precisamente àquelas pessoas que atendem os pacientes, enfermeiros e médicos, etc. devia-se investir mais nas relações interpessoais, no relacionamento humano, porque vê-se que de facto para além da doença, plasmódium os próprios enfermeiros também têm contribuído para o elevado número de mortalidade. Porque quando vamos a um hospital não somos atendidos de imediato e nota-se que às vezes não têm medicamento, depois do diagnóstico não há medicamento”.
“Acho que o governo devia atacar o saneamento básico. Cada ano que passa as coisas pioram, eu vivi aqui no Cassenga e é de facto lamentável, lastimável, como é que nós queremos que a malária diminua com essa imundice? É impossível. Em todos os cantos nós temos focos de lixos, temos aguaceiros, temos lagoas, etc, o saneamento é péssimo, precário, água que consumimos já nem se fala. Eu vivo aqui no Hoji Ya Henda, já estamos há dois meses sem água e é uma lástima, há aqui uma luta terrível pela busca de água, nós consumimos água dos tanques aquela água bruta que vem directamente do rio e vai para as nossas bocas. Eu não sei se continuarmos assim vamos conseguir diminuir os índices de malária. Se continuarmos assim até 2030, conforme diz aí o responsável, não será suficiente e ainda estaremos naquela fase de controlar a doença”.
José Manuel, estudante: “Se andarmos concretamente pela nossa cidade vamos nos deparar com situações extremamente difíceis no que concerne às águas paralisadas e essas valas de drenagem que não são limpas, que um projecto do governo que não surte efeito para nada”.
“Gostaria de fazer uma chamada de atenção ao nosso governo, nós não podemos só falar da erradicação da própria malária, falo também das outras doenças que tem havido no país, só quando estamos próximos a uma data, a data da erradicação, devemos falar disso todos os dias das nossas vidas”.
Elísio Magalhães, funcionário público: “Não só vamos falar da malária quando chega esta data, a malária é o nosso dia a dia, é algo que labutamos o dia a dia nas nossas unidades sanitárias. Não falaremos da malária na data festiva, mas, vamos lutar, acabar com os charcos, acabar com o lixo ao redor das unidades hospitalares, as pracinhas junto dos hospitais, dentro dos hospitais existe mosquitos, baratas, ratos, hora vejamos, isso é uma situação que as nossas entidades devem zelar por isto. Porque até o próprio médico, o próprio enfermeiro dá o seu cabedal ali, salvando vidas, quando também é contraído a malária. Então, não podemos ver os outros mas sim vermo-nos todos nós como humanos.
Abraão de Jesus, assistente administrativo: “Devíamos ter mais precaução quando fazemos pronunciamentos públicos mesmo quando concordamos com aquilo que são os pronunciamentos das instituições globais, porque muitas das vezes as conclusões e recomendações das grandes conferências são feitas na perspectiva dos países desenvolvidos. Ou seja, no nosso caso na concepção dos programas ou projectos estudam-se as fortes fraquezas e as oportunidades, então, no nosso caso nesta fase nós temos fraquezas que nós devíamos levar em conta ao concordar ou a fazer uma afirmação como erradicar a malária daqui há um certo tempo”.
“Por exemplo: devíamos saber que em termos de fraquezas temos elevados focos de lixo nas ruas, o saneamento é quase inexistente, em quase todos os cantos da nossa cidade nós encontramos águas paradas, lixos aos montes, e também temos a questão do elevado índice de analfabetismo. Portanto, em termos de soluções: é necessário redobrarmos a distribuição da rede de mosquiteiros, é necessário melhorar o saneamento, as organizações privadas deviam colaborar mais”.
Adão Capete: promotor de vendas, “Relativamente ao tema em debate é de facto um problema que tem preocupado não só as autoridades como também á nos como cidadãos. Sabemos e reconhecemos que a malária, hoje é a principal causa de mortalidade infantil, quero particularizar este lado. Hoje, grande parte das crianças que nascem não conseguem chegar aos cinco anos por causa da malária, e as causas desta doença todos nós sabemos: é o deficiente saneamento básico que Angola vivi, é o grande acumulado de lixo que vê em tudo quanto é canto”.
“E temos metas que daqui há vinte anos erradicar a malária, se hoje nós olharmos, será que daqui há vinte anos conseguiremos erradicar malária? podemos afirmativamente dizer que não, não conseguiremos. Então, em vez de termos apenas metas traçadas comecemos a dar passos concretos”.
“É preciso que haja seriedade, é preciso que haja esforço de todas as partes, não só do governo falo particularmente da população. No que concerne o lixo tem havido um esforço enorme por parte do governo de modo a tentar manter a cidade limpa, mas, nós os cidadãos até certo ponto não temos colaborado, é preciso que nós também colaboremos com os esforços que o governo tem vindo a fazer de modo a melhorar a limpeza da cidade. É preciso também que as empresas, principalmente aquelas empresas que actuam naquelas áreas recônditas do país contribuam também fornecendo mosquiteiros”.
Padre Daniel Malamba: “sem higiene, sem o saneamento básico não podemos sonhar com a erradicação da malária, porque o foco principal é esse, sem isto não vale a pena sonhar. E depois é a mentalidade, se nós não mudarmos de mentalidade em relação ao lixo, em relação a pessoa, em relação ao uso dos bens, em relação ao uso dos dinheiros que se vai empregar, estabelecer uma meta de trinta anos, eu calculo que serão pelo menos dois ou três bilhões de dólares para combater. E é preciso colocar esse dinheiro no seu verdadeiro lugar. Se não combatermos essa mentalidade de derrapagem de roubo não adianta, e também acabar com a mentalidade de vender sonhos”.
Domingos Manuel: “Eu acho que é possível erradicar o paludismo no ano 2030, o essencial é ter vontade para erradicar o paludismo ou a malária. No entanto, é necessário que se apague as fontes, nós temos nos esquecidos que há pessoas interessadas em trabalhar em prol do povo, então, é necessário que pensemos que Angola não tem os cidadãos que não olham para o povo, é provável que daqui a trinta anos estes governantes que mantenham o poder e que não estão interessados em resolver alguns problemas básicos da população já não estejam a governar, e tenhamos angolanos interessados a ver não só o lucro próprio, mas sim, interessados também a ver o país a desenvolver e banir os aspectos negativos da sociedade. Aí sim, até 2030 será possível erradicar o paludismo”.
“Se no tempo colonial este paludismo, esta malária quase era inexistente como é que não será possível daqui até 2030 anos erradicarmos o paludismo? É possível, nós não temos que ver só a vertente negativa, temos que ver também a vertente positiva, nós somos homens, somos angolanos, e temos que ver o país na perspectiva de que tem de melhorar, tem de melhorar, temos que ter o pensamento positivo”
“O que eu acho é que nós os angolanos quando analisamos um aspecto que é negativo nesse momento, vejamos só a parte negativa, o pensamento negativo, não pode, temos que pensar que nós os angolanos temos que ter uma visão que o país deve melhorar, e se termos esta visão é provável que no ano 2030 não erradiquemos na sua plenitude, mas, tenhamos essa situação muito melhorada”.
Pacheco Manuel, oficial de segurança: “O que acontece é o seguinte: todo mundo defende o combate contra a malária, mas, no terreno não acontece, está a se falar agora do coarten, porque que o governo não pode dizer que o coarten nas farmácias também é grátis? Tem pessoas que não conseguem ir nos hospitais públicos e vão nos privados, dão receita e vão à farmácia e o coarten é mil kwanzas, na farmácia e não tem como, quer dizer ele fica em casa a rebolar e continua com paracetamol, o governo tem que assumir isso”
“O coarten na farmácia custa mil kwanzas, agora imagina uma pessoa de baixa renda, que não trabalha, não tem condições para isso? É difícil”.
“E quanto aos charcos de água, é importante o governo assumir esse lado dos musseques porque os nossos musseques estão suburbanizados e o governo se quiser por mão nisso pode sim. Vejamos o que aconteceu no Morro Bento, na altura o governo andou a partir casas, porque é área da Erdube, é reserva do Estado, muita gente fugiu do Morro Bento para o Tala Tona, o Tala Tona está desurbanizado, querem voltar a partir o Tala Tona mas ninguém vê nada, não tem agua, não tem luz, não tem nada, quer dizer: está todo mundo a passar mal, quando há charco de água não tem o que fazer, e eu vejo ministros que passam por aí, carros bonitos e passam no charco de água, vêem isso, não é novidade, em pleno lixo, ministros passam por aí para fugir o engarrafamento, isso não é justo”.
“Tudo bem, o cidadão fala, o cidadão reclama, o Estado está a fazer o seu papel, tudo bem, mas ainda é pouco diante do que se tem a fazer, eu acho que tem que se trabalhar mais e falar pouco”.
”Eu acho que tem que se parar com a campanha porque os carros de fumo nos condomínios passam duas três vezes por semana, e não é aí onde está o paludismo, eles têm do bom e do melhor, vão nas melhores clínicas. Eles têm que primar pelo cidadão porque o governo é do cidadão não é deles”.
Hibraim dos Santos, professor: “O problema da erradicação do paludismo tem a ver sobretudo com o saneamento básico, como a própria administração dos fármacos. O coarten não tem sido bem administrado se tu vais a um hospital nem sempre tem fármaco, há dias fui ao hospital e quando lá cheguei disseram-me não temos comprimidos, tens que ir à farmácia comprar, chego na farmácia o coarten custa por ai mil kwanzas, eu acho que é difícil falar em erradicação da malária quando há essas condições péssimas”.
Mousinho Pires: “Falar da erradicação da malária é coisa um pouco complicado porque nós estamos a olhar para Luanda. Eu vou lhe dar um exemplo: eu estou a passar agora a Estalagem se vier para o Coelho tem um armazém grandíssimo depois do Coelho quem vai à Viana logo depois tem um charco que nunca mais secou, está verdíssimo, um pouquinho mais atrás tem uma estrada nova que fizeram auto estrada de Viana Luanda ali mesmo no Coelho, cai chuva e a agua acumula a chuva já está sem cair parece há uma semana, os miúdos estão a lavar os carros com esta água, na via pública, uma estrada nova e tem um esgoto ao lado e a água não entrou.
Indo fora de Luanda, eu cheguei a pouco com o meu carro do Huambo, Bié, a cidade do Huambo está bonita, eu sai um pouquinho mais é lastimável ver o que está por fora da cidade, Bié já não se fala eu girei aquilo com o meu carro, Bié não está em condições, eu vim de Malanje com o meu carro, fui conhecer Malanje, as pessoas falam da cidade, coitado daqueles povos que vivem onde não há saneamento, eles vão buscar aquela água da cacimba que não se bebe, eu sentei e perguntei, até quando que a vida, até quando que a educação, ensino venham para este povo, como dizem educação, ensino para todos, até quando? Para não falar de Luanda, só olhamos Luanda. É verdade que Luanda está péssima, porque nós temos Angola como Luanda, não temos Angola com todas as províncias.
Por isso, se Luanda está assim, eu não sei se eles dizem erradicar paludismo em Luanda, o director de controlo falou da erradicação, eu não sei se ele disse Angola toda ou só Luanda. Eu estou a ver que estão muito apegados em Luanda, e como é que ficam as províncias mais profundas? Como é que lá fica?
Agora, essa população que eu vi lá onde passei como é que eles vão comprar coarten a mil kwanzas se para comer é difícil?
Luís Curitola, estudante: “Não será possível nem daqui há cem anos erradicar a malária por um simples facto: o que se deve fazer não está ser feito. O dito esforço que a população apoia que é do governo é um esforço de combate à malária. O tal esforço de combate à malária é de longe desproporcional à prevenção da malária. Nós temos a fonte de produção do mosquito: é o lixo, a falta de saneamento e águas paradas”.
“Enquanto não houver um esforço no sentido de prevenção da malária que é a eliminação das fontes de produção dos parasitas ou do plasmódium, não é possível pensarmos em erradicar a malária”.
Padre Daniel Malamba: “É necessário o ataque às fontes, ao saneamento básico, e sobretudo ao combate ao mosquito. O que os ouvintes falaram está tudo bem, mas, eu critico um pouco o cepticismo, de facto com esta mentalidade será impossível, com essa mentalidade de não acreditar que podemos acabar com a malária, será impossível. E essa mentalidade reina nos que governam, na forma de fazer o combate, esse cepticismo na forma como são feitas as mesmas promessas, contando só no máximo sem cair em detalhes. Muitos ouvintes cingiram-se nos detalhes, são estes os detalhes que vão marcar a diferença e que vão dar o impulso desse programa de eliminação e depois de erradicação da malária, só os detalhes, são mais importantes o resto é maximização do problema, o resto é vender, é algo para o inglês ver”.
“Se nós sentarmos, unirmos energias, governo, governante, sobretudo os governos municipais devem ser eles a tratar da situação. O que aconteceu no Cazenga isto é piorar a mentalidade já doentia do angolano, estava cheia de água, vai um partido limpa, amanhã vai chover, tornará a água, esse povo vai ficar á espera da JMPLA, são eles mesmos que deviam empenhar-se em arranjar com ajuda da administração e não pessoas vestidas não sei de que cor e vão lá e fazem, amanhã outra vez água vai cair e tudo inunda e vão esperar JMPLA”.
“Essa mentalidade é de pobreza, é de pobreza. O governo é do partido, deveriam incentivar o município para que com a ajuda das comissões de bairros fizessem um esforço de fazer aquilo, eu não estou contra acção, estou contra o método. É como a Caritas, tu dás coisa á pessoas da Caritas se elas não participam no processo elas vão ver aquilo não como uma intervenção pessoal, não como um contributo pessoal e amanhã se cair na mesma situação vão esperar”.
“Há dias falei com uma tia que eu conheci algures em Espanha, Itália ela é angolana frequentava muitas vezes as terras europeias, três semanas atrás ala ficou apoquentada com uma doença e teve que ser evacuada para a Namíbia, no regresso dela disse-me o seguinte: padre, acredito e eu era conforme, me conformava com a situação da diferença crucial que existia de Angola, Itália entre Angola e Espanha ou entre Angola e países europeus porque eles já trilharam um caminho enorme e são brancos e nós somos negros, mutas vezes me conformava em ver esta diferença mas agora não consigo conformar-me que Namíbia, um país vizinho tenha as condições que tem, um país pobre em recursos humanos tem as condições que tem, e a mentalidade que tem, e a solidariedade que tem, e a educação que tem, e nós não. É uma senhora que voltou da Namíbia triste pela diferença, porque antes pensava que a única diferença era de cor e sobretudo de distâncias em quilómetros com a Europa e África ou com a Europa e Angola. Agora confrontada com uma realidade dos nossos irmãos, negros, falando a mesma língua na fronteira, nota uma grande diferença na higiene, no saneamento básico, no cuidado, etc. Em contrapartida a Namíbia é um dos países em que a malária não apoquenta tanto como em Angola por causa disso”.
“O problema da malária é um problema de mentalidade, e agradeço realmente o esforço ou o propósito do ministério da saúde em estabelecer um time, uma cronologia de combate até à erradicação, eu aplaudo a iniciativa. Eu penso que a paz deve trazer esta normalização das instituições, com a paz é possível que nos empenhemos todos que o governo sonhe realmente neste país que se quer”.
“Erradicação: objectivamente Angola não poderá erradicar a malária até 2015, diria mesmo impossível até 2015, dentro de cinco anos. Hora bem, o senhor Filomeno Fortes fala da erradicação e acrescenta, se os mecanismos forem cumpridos, muitos que criticaram pensaram que é um vendedor de sonhos, não, se os mecanismos forem cumpridos dentro desse tempo de trinta anos a malária pode ser erradicada”.
“Seguindo de facto o ritmo actual, continuando com esta mentalidade não vamos erradicar a malária mesmo dentro de cem anos. Mas, arregaçando as mangas, todos colocando a malária como um problema serio, um problema de saúde, podemos sim erradicar a malária dentro do prazo”.
“A primeira malária que deve ser erradicada segundo a minha pobre opinião é a malária mental. A malária mental consiste em primeiro lugar na falta de empenho e nacionalismo no combate ao lixo, na falta de empenho nacionalismo e politicas sanitárias que levam realmente á uma politica de abrangência de cobertura abrangente da situação do nosso povo. A malária mental é muitas vezes a malária do conformismo à doença, sobretudo no interior, por que uma pequena malária pode matar? A malária mental é o modo como nós tratamos o angolano nos hospitais o deixamos morrer por simples febre. A malária mental é realmente todo este projecto que se faz e não se cumpre. A malária mental está no mal uso dos recursos públicos. Erradicar a malária exige uma soma enorme de dinheiro, como dizia antes. E se este dinheiro for entregue na sua totalidade ao combate e erradicação da malária, podemos até antecipar esta erradicação, se os outros o fizeram, por que não nós? Há países onde houve malária e hoje não há, se os outros o fizeram, nós também podemos”.
“Eu penso que este orgulho na luta contra a malária, esta exaltação das nossas próprias forças deve ser a primeira das armas a empregar no combate a erradicação da malária em Angola. É possível, até digo mesmo antes dos trinta anos, basta que o governo cumpra com as politicas e nós todos, cada um na sua condição colaborar neste combate”.
“Que mecanismo adoptar? Higiene do meio ambiente, saneamento público, aumento de capacidade técnica, material e humano. Porque há lugares como em Kimbele uma pessoa com febre, não há instrumento, não há capacidade técnico-material de diagnosticar uma malária”.
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