VIRTUDE E POLÍTICA

Pela nobreza da finalidade de servir o bem comum, a política goza de uma aura de virtude à partida. Na prática, infelizmente, as coisas não são tão lineares. E a conjuntura nacional disparou autênticas pérolas de exemplos, recentemente. A convergência entre a política e a virtude rareou, quer por parte do Poder como da Oposição.

Do Poder, é consabida a forma como se aproveitou da necessária conclusão do moroso processo constituinte. Perante a impotência colectiva enviou as eleições presidenciais para as “calendas gregas”. Claro, na impotência da Nação, têm sido determinantes a ânsia de estabilidade do pós-guerra e a humana individualidade estatal garante da mesma.

Da Oposição, que alardeou o belisco da democracia na ocasião, não tardou acertar o passo por um vício análogo. Consistiu na evocação da famigerada «vontade dos militantes» de ver o “querido” chefe do maior partido da Oposição num terceiro mandato.

Nesse turbilhão, o maior partido da nova geração (portanto, virgem de sangue), reputado federalista, vota numa Constituição unitarista, baralhando os observadores sobre a sua identidade, entre a proclamada nos respectivos estatutos e a suspeita.

Não ficou de resto, no redemoinho, o terceiro partido histórico, mesmo enfraquecido. Distinguiu-se em lembrar, num memorando, que ele não nascera como «partido político, mas sim como um movimento de libertação». Ora, esta mensagem trocada em miúdo, indica que a arte da violência permanece entre os seus argumentos.

Quer dizer, se esta leitura é correcta, não se corrigiu ou não aprendeu a lição da história! E os pares, mesmo se não o disseram, os paradoxos da sua actuação, assinalados acima, não manifestam o mesmo pendor?

A democracia, quadro de coabitação pacífica das fortes identidades partidárias, requer a firme conversão para outra antropologia, outra cultura. Requer, dos actores, convergência transparente da política com a virtude, apesar das naturais oscilações tácticas da primeira. O eleitor, o soberano primário e último, quando vota em consciência, guia-se por este critério. A Sociedade Civil acordada, como tem vindo a dar sinais no país, auxilia nesta direcção, isolando cada vez mais os esquemas obsoletos. É nesta senda que a imprensa não hesita em criticar um acórdão do Tribunal Constitucional, que deu o dito por não dito contra um partido sufragado em 2008.

Ademais, a afirmação da virtude pode contar doravante com a bênção aberta da força moral do país, a Igreja, que tem reiterado o seu compromisso neste campo. Ilustra-o, a posição frontal, que o presidente da CEAST assumiu contra os desalojamentos forçados no Lubango aos 12 de Março último e o silêncio do drama pela imprensa estatal.

Citámos:

«A Sagrada Escritura pede-nos que rezemos pelos nossos governantes, mas para que nos governem bem (…) Não é para que alguém faça uma acção autenticamente maligna contra as populações e nós vamos pedir que Deus o ajude», declarou, na circunstância, o também Arcebispo do Lubango, Dom Grabriel Mbilingi.

Portanto, a qualquer gesto virtuoso ou pecaminoso, hoje em dia, jamais, faltará, honesta voz ou pena, para o apreço ou o repúdio. A virtude precisa cada vez menos do maligno vício politiqueiro.

(Uma co-produção de Siona Casimiro e P. Maurício Camuto. Apresentação da Margaret Nanga no programa ‘Visão Jornalística’ da ‘Rádio Ecclesia’, na quinta-feira 06 de Maio de 2010)

 

 


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