RAZÃO DA PERSISTÊNCIA DE FAMILIARES JUNTO DAS UNIDADES HOSPITALARES

Chico João, contabilista: - “Primeiro é que há falta de amor por parte dos profissionais da saúde, particularmente os enfermeiros até a equipa médica, porque antigamente o aglomerado de familiares de doentes internados nos hospitais não era como agora. Agora é preocupante. É preocupante porque muitas das vezes a falta de medicamentos nos hospitais já é um caso, o outro caso e a higiene dos pacientes, os enfermeiros e as enfermeiras muitas vezes espancam o doente porque o mesmo defecou ou mesmo caiu da cama. Muitas das vezes os nossos profissionais de saúde, o juramento que fazem no final do curso não corresponde à realidade”.

 

 

João Paulo, motorista: - “O maior problema é mesmo falta de confiança, falta de amor, o angolano não tem amor. Eu tenho um sobrinho que é celuloso, ele teve uma crise e tivemos que levar no Hospital Geral, posto lá no Hospital Geral não havia cama para poder internar a criança, nos deram um colchão podre onde nós tínhamos que meter a criança, graças a Deus encontramos lá um conhecido que ele foi desenrascar um colchão bom onde metemos a criança, no chão”.

 

Não havia uma boa assistência medicamentosa, vimos que estamos a correr risco de perder o miúdo, nós tínhamos de fugir daquele Hospital Geral para irmos na Clínica da Mutamba, onde socorreram o miúdo. Este é o problema maior, quer dizer: não há confiança, não há amor, os funcionários não têm amor com os pacientes”.

 

Aquilo só vê-se luxo por fura, dentro está mesmo mal, mal mesmo, não há hipótese, é verdade”.

 

Abraão de Jesus, assistente administrativo: - “Eu penso que o maior problema é a existência de poucos hospitais, em função das doenças venéreas que deambulam por aí, em função do próprio saneamento básico que é deficiente. Existem poucos hospitais para fazer frente a esta situação, o que faz com que a procura seja maior do que a oferta.

 

Por outra também, é a questão das estruturas dos próprios hospitais, as estruturas são deficientes, vamos ver que em muitos hospitais se existe uma sala de espera é um corredor de um metro e meio, e faz com que se crie dificuldades diversas. A outra é a falta de confiança por parte dos utentes nos serviços prestados para eles. Temos pouca confiança ou nenhuma naqueles que tratam da nossa saúde, que é muito mal. Isso é originário por vezes do mal preparação de alguns enfermeiros, paramédicos, talvez médicos”.

 

Então é preciso que se dê resposta a cada uma dessas situações, quer a inexistência de hospitais, quer as estruturas deficientes. 

 

 

David Miranda : - “Eu penso que Luanda deve descentralizar os serviços de saúde, é preciso que se crie hospitais municipais, eu estou a falar de hospitais municipais não de centros de saúde de bairros que não existe se quer uma aspirina, uma água oxigenada, para atender as pessoas. Estou a me referir um hospital municipal com qualidades técnicas, medica, medicamentosa para atender a demanda

 

Eu penso que para além da tal solidariedade que muitos ouvintes referiram, a nossa solidariedade africana que nos é característica, também há uma situação muito importante que devemos ter em conta que é a falta de condições medicamentosas nos hospitais, sabemos muito bem que os nossos hospitais daqui de Luanda optam mais pela receita, isso é que tem feito com que os familiares passam a vida inteira ali ao arredor dos hospitais.

 

 

Miguel Cupetala, agricultor: - “A solução para esta situação é meter nos hospitais as madres, é só fazer uma parceria entre a igreja e o governo. O Ministério da Saúde deve encontra-se com a igreja, e por as madres em frente dos hospitais.

 

Temos aqui este Hospital dos Cajueiros, lá dentro não tem lá nada, lá dentro não tem lá nada, estão a fazer uma estrutura tão bonita, o que importa fazer uma coisa bonita e não tem nada? Não tem nada lá dentro. Eu levei lá o meu filho era 19 horas, posto lá não encontrei nenhum médico, disseram que não tem medico, volta”.

 

Lá dentro do Cajueiro tem lá um jango que todo mundo pode entrar ali dentro, mas eles não deixam entrar as pessoas no jango. Elas ficam fora porque não há confiança, não há confiança nenhuma, as pessoas não têm confiança nos enfermeiros.

 

Olha, há um problema que está a se passar, a maka do dinheiro, da gasosa, se deres aí uma curva o teu paciente vai ser bem tratado, você vai lá dentro não vê nada, mas se dares um dinheiro há um enfermeiro, alguém que está a trabalhar, o teu paciente é tratado, mesmo que não estiveres lá dentro é só dar o número do telefone. Então as pessoas ficam aí fora porque não tem confiança com os enfermeiros.  

 

 

Simão Miguel Chinguito, jornalista: - “É necessário que as autoridades do nosso país estejam sincronizadas para que nós tenhamos uma saúde sã, vital e coesa”.

 

 

Marcos Ariel Correia, estudante : - “Eu começo a criticar os governantes, o ministro da saúde e a governadora. O caso das enchentes dos familiares na rua dos hospitais é por causa das condições que oferecem os hospitais, muitas das vezes não são culpa dos enfermeiros nem dos doutores, muitas vezes eles não sabem como dar uma informação porque não têm meios suficiente, não têm condições”.

 

Então aquelas enchentes que tem se verificado nas ruas, a família sabe que o hospital não tem condições para tal, então eu vou ficar na rua porque o meu familiar, o meu irmão, o meu primo está ali, e qualquer momento vai precisar de alguma coisa que o hospital não tem.

 

O hospital é carente de medicamentos, é carente de amor, os enfermeiros têm qualidades, têm profissionalismo, mas aquela carência, aquilo que o hospital às vezes oferece traz transtornos nos enfermeiros.

 

Luís Curitola, estudante: “As enchentes nos hospitais é reflexo das assimetrias da sociedade, a nossa sociedade não está devidamente equipada para ter pessoas saudáveis, então ela produz muitos doentes, e as autoridades não têm capacidade para poder fazer hospitais, ou medicamentos, ou assistirem o número de doentes que se produzem por dia.

 

Nem a própria equipa médica consegue às vezes atender o número de doentes que vão nos hospitais, isso também traz alguns transtornos. A outra questão é a falta do pagamento dos salários atempadamente e o salário condigno, isso também frustra e debilita a própria moral dos enfermeiros e dos médicos.    

 

Os familiares de doentes que dormem fora do hospital às vezes é porque dentro do hospital não tem medicamento, a outra, às vezes é só uma pessoa que está doente e toda família quer ir prestar solidariedade.

 

Inácio Segunda, estudante :“Eu acho que primeiramente é a falta de solidariedade, realmente quando não se trata do amor para com o amor, então é complicado e ficamos todos frustrados e doentes.

 

A persistência dos familiares fora dos hospitais é por vários factores, porque dentro das unidades hospitalares não há medicamento, então quando não há medicamento recorre-se a terceiros, a terceiros são os familiares dos tais doentes, também a própria alimentação há um défice de alimentação nos centros hospitalares, o outro caso é a distância das casas dos pacientes.

 

Padre Daniel Malamba : - “Os médicos praticamente são os mesmos, noventa porcento dos enfermeiros que trabalham em Luanda também prestam serviços nas clínicas, como é que as pessoas são capazes desta capacidade de mutação de competência?

 

Quando está na clínica, talvez é mais controlado, o director está mais em cima dele, trabalham perfeitamente, quase a perfeição. A mesma pessoa vai no hospital do Estado, trabalha com uma negligência como se estivesse a fazer favor a todos. Portanto, qual é a razão realmente das pessoas se comportarem desse modo, no hospital público negligente e nas clínicas eficiente? Essa é realmente uma das causas pelas quais as pessoas estão aglomeradas nos hospitais públicos, e nas clínicas, sobretudo Girassol, Sagrada Esperança, onde as camas estão praticamente abarrotadas, não há gente porque há confiança. A minha pergunta é: por que o mesmo enfermeiro se comporta assim dessa maneira?    

 

Alberto Alves Coimbra, empregado de balcão: - “Depois de tudo que acabei de ouvir dos familiares dos pacientes, cheguei a seguinte conclusão: nós temos um governo direccionado contra os pobres, contra os pobres, porque o problema não dos directores dos hospitais, é um problema da estrutura governamental. Há dinheiro para construir estádios de futebol, há dinheiro para gastar superfluamente, não há dinheiro para construir hospitais em condições? Não há dinheiro para pagar os médicos em condições? Há dinheiro para comprar prados para gajos que não fazem nada neste país, ficam a andar atrás dos outros, mas não há dinheiro para dar um bom subsidio a um médico? Um carro a um medico? Não há dinheiro para financiar um médica, um enfermeiro para comprar um transporte para ter uma vida, também é igual a eles, vê-se logo que esta gente está direccionada contra os pobres, este é um regime direccionado contra os pobres. O problema deles é: enquanto mais as pessoas ficarem pobres, eles que morram, eles não estão nem aí, a verdade é esta.

 

Paulo Brilhoneve, licenciado em comunicação social: - “Estes problemas nos hospitais de facto são uma reflexão desses problemas que África e Angola em particular têm vivido. Mas o que leva as pessoas a se aglomerarem nos hospitais e centros de saúde? Primeiro: factores culturais, a tal solidariedade africana, todo mundo quer prestar apoio aos enfermados, depois, os nossos médicos, os nossos enfermeiros dos hospitais públicos não oferecem confiança, depois, a falta de sentimento de humanista, o humanismo e também o nacionalismo, o amor, as pessoas não têm sentimento.

 

É um absurdo os familiares terem que cuidar dos doentes, os familiares terem que comprar fraldas, terem que comprar medicamentos, até comida, alimentação do paciente tem que vir dos familiares. Então se eu for em casa dormir e o meu familiar precisar de uma fralda descartável ou precisar que lhe seja trocado, ou que lhe seja dado banho, o que vai acontecer? Portanto eu tenho que estar ali, eu tenho que estar aí fora para. De facto é lamentável, e é necessário que reflictamos.

 

Nós temos que responsabilizar de facto os gestores de saúde, gestores públicos, porque em democracia funciona. Nós temos que criar condições, criar hospitais, infra-estruturas atendendo a característica do nosso povo, nós sabemos que somos solidários, então vamos criar infra-estruturas, vamos humanizar mais a equipa médica. Mas os enfermeiros são para que? Se o familiar é que lava o seu paciente, devemos também criar equipas de fiscalização dos enfermeiros .

 

Mário Chatulica, enfermeiro: - “O que acontece no momento de trabalho é: há poucos enfermeiros e há muitos doentes, e havendo muitos doentes desde que começam a fazer o trabalhar até terminar é muito tarde, o que está em causa é a condição do próprio enfermeiro, eles são poucos e há muita gente. Há um senhor que disse e muito bem, devemos ver a demanda, o que está aqui é a demanda. Eu penso que não devemos ver só o enfermeiro como o mal feitor, mas nós devemos ajudar um pouco o enfermeiro porque o enfermeiro precisa mesmo apoio.

 

Padre Daniel Malamba :  “O problema de que nós estarmos a debater aqui tem três causas fundamentais: a primeira causa é o governo, a segunda causa são os trabalhadores, e a terceira causa são os próprios pacientes e familiares. Esse tríplice factor de causas, da aglomeração da população à volta dos hospitais, a solução que se requer é a mudança de mentalidade, mudança de mentalidade dos que governam, mudança de mentalidade dos médicos, enfermeiros e pessoal de serviço, de apoio, mudança de mentalidade do doente, da nossa capacidade de contrair doenças, mudança de mentalidade na prevenção das doenças, e sobretudo mudança de mentalidade também da forma como atendemos o nosso próprio doente, esse é o primeiro ponto fundamental.

O governo, os trabalhadores, os pacientes e familiares, todos em parte somos culpáveis, cúmplices da presença massiva de população, mamãs, sobretudo mamãs com filhos, com bebés recém nascidos à espera a volta dos hospitais. Os serviços prestados não dão confiança, carecem de informação. A informação nos hospitais devia ser dada por quem? Chama-se serviço de assistência social. Os nossos hospitais carecem de assistentes sociais, talvez porque desvalorizam a presença desse elemento, desse profissional. É necessário colocar esses serviços nos hospitais. Os guardas são guardas, os guardas não podem substituir o serviço de assistência social. Um assistente social é aquele que garante confiança aos parentes, que pode dizer: pode ir à vontade, deixa o teu número de telefone, qualquer situação nós ligaremos ao senhor, qualquer situação que acontece o assistente social, não é o enfermeiro, não é o médico é o assistente social que deve dar as informações.

De facto, nos nossos hospitais não é que os nossos médicos e enfermeiros trabalham mal, trabalham alguns muito mal, outros pessimamente e outros fazem o que podem, porque carecem de mecanismos, carecem de meios para um serviço de qualidade.

 

Então, nós dermos todas as capacidades, todas as qualidades, todos os serviços, sobretudo todo o empenho aos nossos profissionais, penso que deverão fazer algo”.      

                                                    

 


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