COMO É QUE DEVEMOS AJUDAR A HARMONIZAR A RELAÇÃO ENTRE PATRÃO E TRABALHADOR

Alberto Alves Coimbra, empregado de balcão: - “O grande problema é a qualidade dos patrões que nós temos hoje, porque para ser patrão é preciso ser educado, há pessoas que não estão educadas para ser patrão, para comandar homens.
Maior parte dos directores das empresas públicas não respeitam os trabalhadores, eles pensam que estão lá para fazer favor ao trabalhador, mas esquecem que o trabalhador é a razão da existência deles, eles estão ali como servidores públicos, mas eles não pensam nisso.
Há pessoas que ganham cem, cento e cinquenta até há pessoas que ainda ganham setenta e cinco dólares. A fiscalização está onde? O MAPESS está onde? Os fiscais do MAPESS o que fazem? Eles não estão aí, não estão preocupados”.
Júlio Mateus, técnico de manutenção: - “Eu acho que os protões só olham mais para o lado deles, não para os trabalhadores. Meu caso, na minha empresa nós cumprimos na íntegra, mas eles nunca estão satisfeitos. Eles são estrangeiros e acham que os pretos não merecem um bom salário digno.
As condições não nos dão, eles têm todas as condições, até água para beber não nos dão. Nós temos um patrão português que não cumprimenta o trabalhador, chega, não pede favor, quero aquilo, fazem aquilo, se reivindicares vais para a rua, tu vais para a rua, vai se queixar no instituto do emprego não resolvem o problema. Tenho um colega que foi despido, não fez nada se queixou o caso já ronda há três anos, eles até vão se queixar onde quiser, porque isso não funciona.
As pessoas que são indicadas para serem patrão não têm educação, não nasceram para ser líder”.
Rosário Magalhães, mecânico: - “Os nossos patrões, os directores das empresas não respeitam os trabalhadores, e não devia ser assim, porque para ele estar ali graças ao trabalhador.
Eu funciono aqui na empresa da Cuca e o director dos recursos humanos não respeita o trabalhador, não dá atenção no trabalhador, e não podia ser assim porque ele está aí para servir o trabalhador. O governo tinha que tomar medidas para este tipo de pessoa”.
António Sola Kamuco, carpinteiro: - “Os nossos patrões e dirigentes não respeitam mesmo os trabalhadores. Eu acompanhei uma situação do meu primo que trabalha com um português, ele disse ao meu primo, eu se te pago quinze mil estou a te pagar bem e você não pode refilar comigo se não te ponho na rua, porque os vossos patrões angolanos só pagam cem dólares.
Deveria existir mais respeito ao trabalhar, porque o trabalhador é tudo. Quando não há trabalhador esse director não tem função, há trabalhador que cinco meses um ano sem receber salário
O director deve ter respeito para que o trabalhador seja firme ao seu trabalho, porque se não vai haver sempre essa tal coisa de gasosa, o trabalhador rouba porque não tem salário”.
António Eduardo, taxista: - “Os nossos dirigentes estão perdidos, porque eles esquecem que partirão desse mundo, eles não estão a conseguir guardar ou preservar o futuro. Porque eles quando olham para um pobre, os pobres devem ser cada vez mais pobres, e arrogância no mandato. Eu acho que é o que eles mais sabem fazer.
Eles não são eleitos, são indicados no partido, o que é triste, um director vai aí com arrogância e astúcia porque sabe que o partido é eterno.
Que o ministro do trabalho vê bem essa situação, porque são muitos trabalhadores que são maltratados, não são pagos os salários, eles reclamam e não há solução. Deveria existir mesmo um tribunal do trabalho, esse tribunal poderia dar soluções aos muitos casos de discriminação dos trabalhadores”.
Paulo Brilhoneve, estudante: - “A constituição de Angola garante o trabalho condigno e o salário para os cidadãos, e também garante a defesa da dignidade humana, da pessoa humana. Uma pessoa só tem dignidade quando tem um trabalho, um emprego, quando tem um salário condigno.
Acho que falta vontade politica, porque se os nossos governantes, aqueles que devem fiscalizar a lei tivessem vontade politica de facto, hoje já nós não estaríamos a nos queixar da falta de emprego, da falta de salários condigno, e os estrangeiros aproveitam-se dessa situação de desorganização que se encontra o país para fazer das suas.
Há pessoas neste país que trabalham para ganhar cinquenta dólares, eu tenho provas disso, é de facto lamentável e lastimável.
Nós temos lei, nós temos o MAPESS, o MAPESS que é o ministério do emprego e segurança social, devia fazer a sua parte, fiscalizar as empresas, tinha que fiscalizar as empresas.
É inconcebível o que acontece nas empresas angolanas, as empresas são totalmente desorganizadas, e há politica de suborno, corrupção activa, os fiscais são facilmente subornados.
Esse tipo de coisas deve acabar, porque não iremos a lado nenhum. Eu repito aqui: é falta de vontade politica, do cumprimento rigoroso da lei.
A constituição defende trabalho para todos e salário condigno, se nós não tivermos salário condigno, é mentira, é pura utopia”.
Luís Curitola, estudante: - “É muito difícil nós abordarmos esta questão. O próprio salário, o próprio ordenado definido pelo poder politico é um ordenado irracional, é feito com base na racionalização ou seja: não consegue suprir as necessidades básicas do cidadão mais baixo. Este é o ponto de estrangulamento que contribui para isso.
Tenho sentido na nossa sociedade que há aqui uma vontade de querermos subordinar a disciplina dos cidadãos, à moral, nunca se atingirá a civilização ou a organização numa sociedade enquanto ela se subordina à moral. Toda uma sociedade tem de estar subornada à lei, e a lei tem de dar a oportunidade de ser aplicada e cumprida. Só assim poderemos ter uma sociedade disciplinada e uma sociedade justa, o que não acontece no nosso país. Há aqui um problema de aplicação da lei. Enquanto não se resolver isso, enquanto os cidadãos não procurarem um poder politico que possa elaborar um salário com base nas necessidades reais do cidadão, será muito difícil, será a causa de muitos problemas.
Outro, também é o poder financeiro que as entidades empregadoras têm, faz com que faltem respeito aos trabalhadores, porque não há a imposição da lei. A lei existe, mas a nossa lei não tem força, é uma lei adormecida.
Penso que cabe aos cidadãos reflectirem, exigirem mais do governo para que se elabore salários e que se faça uma aplicação da lei”.
Inácio Segunda, estudante: – “Eu acho que primeiramente é preciso haver um diálogo entre o pessoal, e depois melhorar a condição de vida de todo o trabalhador, equilibrar um bocadinho a vida do próprio trabalhador, a medida que a própria empresa vai desenvolvendo melhor também a condição do próprio trabalhador, é preciso haver essa harmonia, é preciso haver amor também”.
Alexandre Ferreira, estudante e empregado de mesa: – “É preciso haver harmonia entre o patrão e o empregado. Se houvesse maior fiscalização e penalização por parte dos empregadores, acho que a coisa mudaria. Acho que isso é fruto da má governação que o nosso país enfrenta, os dirigentes políticos têm velado pouco para a situação laboral dos angolanos”.
Mateus Fernandes, estudante:– “Eu acho que deveríamos ter uma gestão muito forte no ramo da administração, tínhamos que implementar leis muito fortes e depois uma fiscalização efectiva.
Nós falamos actualmente em sistema de desenvolvimento do nosso país, mas, não há desenvolvimento sem melhoria de trabalho, tem que houver melhoria de trabalho para houver desenvolvimento.
Nós devemos ter leis capazes, onde diria: todo trabalhador, não importa se é privado ou estatal tem o seu salário estipulado que o Estado estabelece, e depois uma fiscalização, tinha que haver rigor, quem cometer infracção prisão de cinco, seis, sete anos ou presta trabalho comunitário de sete anos, e nós iríamos mudar relativamente”.
Francisco Manuel: – “Eu gostaria que as nossas instituições fossem realmente independentes, é difícil uma fiscalização ir actuar numa empresa de um ministro ou de um general, impossível, por isso é que estamos nesta situação. A solução está em nós, não nos governantes”.
Padre Daniel Malamba, comentarista da Ecclesia: – “A situação é alarmante, é preocupante. É preocupante sobretudo pela falta de respeito ao angolano, em kikongo, em português diz-se muito que a ocasião cria o ladrão. O estrangeiro aproveita a situação que já encontrou.
É verdade que nós temos um ministério do trabalho, MPESS que deveria e que vela realmente, do ponto de vista jurídico fez muitas leis, nesse país não sei se copiamos as leis, mas pecamos muito no comprimento daquilo que nós próprios espelhamos nas nossas cartas constitucionais, na nossa constituição em outros artigos referentes à lei geral do trabalho, inclusivo o artigo sexto e o artigo 45.
Falta fiscalização. A fiscalização é um problema político, também é um problema social, é um cancro. É um cancro porque falta uma formação dos fiscalizadores, quando falo de formação não é só no sentido científico, no sentido de capacitação, mas sobretudo no sentido de angolanidade, sentido de humanização.
Eu não vejo um espanhol a entrar numa loja de um angolano a ser subordinado, a deixar as condições péssimas lá, não vejo, eles primam em primeiro lugar pelo bem-estar do seu país. E nós aqui os estrangeiros venham, riem-se de nós, fazem o que fazem. Eu não vejo nenhum angolano em Espanha, em Portugal a trazer fortunas aqui. Mas os que venham de lá para cá levam fortunas, não há igualdade de oportunidade, sobretudo nessa relação saímos a perder
O salário tem que ser um salário que ajuda a chegar até ao fim do mês, se cem dólares me ajudam a chegar ao fim do mês é um salário justo. Que o poder de aquisição seja compatível com o salário que as pessoas têm, esse é o problema de Angola, não é o problema do salário. Os salários deveriam acompanhar essa especulação política e económica.
Realmente é preciso que todo angolano enverede para uma politica de auto estima; se nos auto estimarmos, nos amarmos, responsabilizarmos a nós mesmos, darmos dignidade, integridade ao angolano, algo deve mudar.
As condições de trabalho e o salário motivam o trabalhador, não se pode exigir controlo quando não se dá condições”.
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